A Grande Noite: I - A Memória da Terra
Como foi escrito por Ben Kalik, o Escriba da Memória
Capítulo I
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E sucedeu que no ano milésimo noningentésimo septuagésimo sexto após o Grande Cataclisma, se ajuntaram os homens sábios da terra no Salão de Pedra, que é em Jerusalém Nova.
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E Tarik Shimon, filho de Reuel, mestre das Escrituras da Terra e pai de muitos discípulos, chamou a reunião e nela assentaram-se seis varões, de grande nome e honra entre os povos.
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E Tarik levantou-se diante deles, e falou, dizendo:
"Ouvi, ó vós que buscais a sabedoria antiga! Pois esta é a Grande Noite, quando se acende a lâmpada do entendimento entre os filhos dos homens."
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"Pois a memória de nossos pais foi varrida como cinza ao vento, e a história dos antigos se perdeu nas trevas da terra queimada. Mas hoje, falaremos dela como quem sonda as raízes das montanhas."
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E Tarik chamou Ben Kalik, escriba entre os povos, e lhe disse: "Fala tu primeiro, pois tens escrito os sinais dispersos nas pedras e nos pergaminhos."
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E Ben Kalik ergueu-se e abriu seu rolo, e falou diante de todos os varões:
"Recebi cartas dos monges de Haleth e dos guardiões de Aramar, que escavam a terra como quem busca pão escondido."
"E entre os escombros acharam pedaços de palavras, fragmentos de luzes, sinais que falam de uma geração que caminhava sobre a terra como deuses."
"Eles curavam sem tocar, voavam sem asas, e falavam com imagens a grandes distâncias. Chamavam essas obras de rede, de energia, de ciência."
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Então Tarik, ao ouvir estas palavras, bateu com a vara no chão e disse:
"Eis que o Cataclisma não foi juízo de céus, mas falha de máquinas! Pois o homem edificou sua torre, mas não olhou para o alicerce!"
"Foi pela ciência que caíram, e pela ciência seremos restaurados."
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Mas Harel Daskir, que fora monge dos Triunos e foi expulso por causa de sua doutrina, ergueu-se e falou com voz firme:
"Ai de ti, ó Tarik, se pensas que o homem é senhor de si mesmo. Pois os antigos também disseram ‘façamos para nós um nome’, e eis que caíram como estrelas apagadas."
"O Cataclisma foi mais do que falha — foi pecado. E o juízo veio como fogo que devora as folhas secas."
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E houve silêncio entre os varões, pois as palavras de Harel eram pesadas como pedra.
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Então Oderik, geógrafo das terras longínquas, estendeu o seu mapa sobre a mesa, e falou:
"Saí dos portões de Jerusalém e caminhei até os limites da terra. Vi torres despedaçadas, cidades submersas e pedras com nomes antigos: Istambul, Roma, Athenas."
"E numa inscrição vi este nome: ONU. E não sei se era cidade ou império. Mas sei que os antigos cobriam a terra com nomes e poder."
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E Seradim Vokar, companheiro de Oderik e conhecedor das feras da terra, abriu uma caixa e dela tirou penas, ossos e peles, e disse:
"Estas são de animais que não conhecemos. Têm olhos que brilham como fogo, e corpos que mudam como nuvens."
"São testemunhas de um mundo que foi, ou sinais de um mundo que tentaram fazer e não puderam sustentar."
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E Belancros, o mais jovem entre os homens, levantou-se por fim, e falou com temor e sabedoria:
"Meu mestre Semêra ensinava: 'O homem que caminha só com a razão tropeça, e o que caminha só com a fé se perde.'"
"Talvez não seja pela razão nem pela fé que caímos, mas por tê-las separado como se fossem inimigas."
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E Tarik olhou para o jovem, e sorriu em seu coração, dizendo:
"Bem disseste, Belancros, filho da Ordem de Luzio. Pois a nova história que escreveremos deve nascer do ventre da união."
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Então Tarik aproximou-se da janela e viu as estrelas brilharem sobre Jerusalém Nova, e disse:
"Eis que nesta noite nasce uma nova crônica. Que se escreva com mãos firmes, para que os filhos dos filhos não se percam novamente."
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E Ben Kalik molhou a pena no tinteiro e escreveu:
"No ano milésimo noningentésimo septuagésimo sexto, a luz voltou a falar entre os sábios. E o mundo começou de novo."
E depois que Ben Kalik escreveu as palavras da noite, houve entre os varões grande inquietação, pois muitos buscavam entender o que havia sido esquecido.
E Tarik falou, dizendo:
“Como se apaga a mente de toda uma geração? Como se perdem línguas, saberes e fundações em uma única era? Pois os pais não deixaram nome aos filhos, e os filhos andaram como cegos no deserto.”
E Harel Daskir respondeu:
“Foi a mão do Altíssimo que cobriu a terra com véu de esquecimento. Como em Babel, confundiu-se a língua dos homens, para que não mais construíssem torres de orgulho. Pois é da vontade divina que o homem reaprenda o que havia esquecido — não com soberba, mas com humildade.”
Mas Tarik replicou-lhe:
“Se assim fosse, por que Jerusalém permaneceu? Por que não caiu como as demais? Por que não foi varrida como cinza no vento?”
“Digo-vos: a cidade resistiu não por milagre, mas por causa do solo, da pedra, dos elementos. Havia aqui equilíbrio. E o equilíbrio preserva.”
E Belancros perguntou com temor:
“Mas e as cidades menores? Por que estão como ilhas sem ponte, separadas umas das outras, vivendo em sombras, sem palavra nem escritura?”
E Ben Kalik respondeu-lhe:
“Porque os caminhos ruíram, e os trilhos se apagaram. Porque os mapas foram queimados, e os nomes esquecidos. E cada cidade é como uma vela distante, visível, mas inalcançável.”
Então Oderik tomou a palavra, com olhos que haviam visto terras e céus, e falou com voz pesada:
“Pois vos digo a verdade, como a vi com meus próprios olhos: o mundo que conhecemos tem fim.”
“Caminhei para o ocidente, e o oriente se perdeu atrás de mim. Cruzei planícies desertas e mares secos. E ao fim do caminho, onde o vento deixa de soprar e o céu não reflete nada, encontrei o nada.”
“Além daquele limite, nada há. Nenhuma criatura, nenhuma árvore, nenhuma pedra. Só ausência.”
E ao ouvirem estas palavras, houve temor entre os varões, e um silêncio caiu sobre a mesa.
Mas Seradim Vokar, amigo de Oderik e conhecedor da terra viva, contestou-o e disse:
“Vi animais que não deveriam existir, vi trilhas que levam a horizontes ocultos. E um mundo que mente é um mundo que guarda segredos. Talvez o que chamas de fim, seja um véu, e não uma parede.”
E Harel levantou-se, com semblante inflamado, e disse:
“Não te enganes, Oderik! Pois o nada que viste é o limite traçado pelo Eterno, para que os homens não busquem glória onde devem encontrar reverência.”
Mas Tarik respondeu:
“Ou talvez seja um campo ainda por semear. Pois os antigos diziam: ‘Onde não há estrada, o homem a constrói.’ O limite não é o fim, mas o desafio.”
E entre eles acendeu-se contenda, pois uns diziam que o vazio era castigo; outros, que era convite. Uns criam que a cidade foi salva por Deus; outros, que por sorte. Uns viam esquecimento como punição; outros, como renascimento.
E Belancros, novamente, falou com sabedoria que não vinha de si mesmo, dizendo:
“Talvez Jerusalém permaneceu não por força, nem por sorte, nem por decreto dos céus. Mas porque alguém a escolheu para ser recomeço. Alguém — ou algo — que desejou que houvesse ainda luz entre os homens.”
E as palavras do jovem foram como bálsamo sobre os ânimos exaltados, e os varões assentaram-se novamente.
E Ben Kalik escreveu em seu rolo:
“Naquela noite, os sábios indagaram o esquecimento, e debateram o nada. E embora não tenham concordado, cada um ofereceu uma centelha para acender o lume da nova história.”
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